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Na época da faculdade, saia do trabalho direto para a aula e, às vezes, comia um sanduíche natural ou um pedaço de bolo no portão principal da universidade. A comida caprichada fez-me freguesa das jovens, que também eram estudantes, e vendiam quitutes para pagar as despesas. Sabia disso por outros amigos porque eu mesma nunca conversei com elas a não ser o trivial para escolher sabores, saber o preço e efetuar a compra. Naquele tempo, não passava pela minha cabeça que um universitário fosse vendedor ambulante. A desculpa de falta de tempo para bater papo, na verdade, era excesso de orgulho, que abundava em meu coração.
O destino providencia. Há alguns anos, minha filha conheceu a filha de uma das garotas, que eu não sabia ser a mesma da época da faculdade. As crianças foram ficando amigas e as mães aproximaram-se. Naquele tempo estávamos casadas e nos encontrávamos nos aniversários e eventos da escola. Depois que nos separamos de nossos maridos, passamos a conversar sobre a educação dos filhos. Logo, já falávamos sobre tudo. A mãe da amiguinha de minha filha tornou-se minha amiga.
Desfrutamos de uma amizade madura, sem as turbulências e os compromissos característicos dos adolescentes. Nossos encontros sempre são bons e proveitosos para mim. Ela é sensata. Acredito que isto seja um traço de sua personalidade e não fruto do treinamento profissional na área da psicologia. Sempre digo que nossos problemas são idênticos e trocamos experiências para resolvê-los. É um relacionamento que vai se construindo aos poucos, sem tropeços nem acelerações.
A vida dá voltas. Isso é bom, porque podemos resolver o que antes deixamos passar desapercebido. Estou em uma fase na qual os trabalhos manuais encantam-me tanto quanto o intelectual. O sentimento resulta de uma reavaliação de tudo, principalmente de conceitos atravessados por julgamentos sem fundamentos. Hoje, a pergunta que não cala é qual a real utilidade do trabalho que realizo para as pessoas? Tenho necessidade de sentir-me útil. O que faço é produtivo?
Olhando de cima, agradeço a Deus a oportunidade de reencontrar essa pessoa nessa fase da vida. É uma figura crucial para a minha reavaliação e a reformulação de atitudes. O caso representa um grande aprendizado para mim.
(17 de julho de 2008)
Distantes quarteirões, algumas pessoas nos tratam como velha conhecida. É o caso da zeladora do antigo prédio da esquina e, mais adiante, da portuguesa, proprietária da casinha verde. Desde sempre, nos cumprimentamos. Com certeza, elas não têm idéia de onde moro. Nunca nos vimos morro a baixo. Somos vizinhas e amigas de pouca conversa –só bom dia, boa tarde ou boa noite–, mas sempre com sorrisos sinceros, como que só a presença valesse um presente do céu. A alegria deixa a impressão de que nos conhecemos há séculos.
(17 de julho de 2008)
Quase todos os dias, encontro a senhora loira, que cruza comigo na rua quando vou ou volto do trabalho. No começo, há cinco anos, achava seu semblante triste e pus-me a rezar por ela. Dias e dias se foram. Este ano, passei também a sorrir por perceber a graça da vida: o universo providencia diariamente o nosso encontro e nem precisamos marcar.
Em meus pensamentos, ela é uma pessoa que sustenta a família sozinha. A separação do marido foi traumática. Arrisco dizer que ela cuida também de algum parente idoso. As dores do passado deixaram muitas marcas em seu rosto difíceis de serem apagadas. A religião surgiu como uma tábua de apoio para agüentar a dureza da vida. Penso que seja evangélica pela maneira recatada de se vestir. Exibe uma elegância quase nobre dentro de sua simplicidade. Aparenta ser muito dinâmica. Sei que trabalha em um prédio residencial. Fiquei feliz quando a vi entrar no edifício alto da esquina.
Aquela pessoa triste já não está tão triste para mim. Cumprimentamo-nos, sorrimos e ficamos alegres por nosso encontro. Preocupo-me quando não a vejo e rezo para que esteja bem. Nos últimos dias, ela começou também a acenar e em dois deles ela estendeu a mão à distância como se quisesse apertar a minha. Ela também diz: “bom trabalho” ou “bom descanso”. Acho que um dia vamos nos abraçar e dizer: “Vá com Deus”. Não sei seu nome.
(17 de julho de 2008)
